quarta-feira, 29 de março de 2023

Silêncio e Palavra – Thiago de Mello


Júlio César Rodrigues Lima*

Bacharel em Direito e Licenciado em Letras - Língua Portuguesa


Thiago de Mello, um dos maiores poetas do Brasil, referência universal no âmbito literário, um grande representante do Norte brasileiro. Suas obras de imensurável valor são a marca de um amante dos rios e da Amazônia, da liberdade e do poético-existencial. Obras que arrebatam o homem e mostram a essência de quem somos. O grande poeta teve suas lutas, mas acima de tudo cantava a esperança. Após tantas retaliações, os exílios e fugas de um mundo que vivia sobre a outorga ditatorial — grandes golpes —, o poeta jamais esmoreceu, mas se reafirmava como uma fênix, como o que não pode ser destruído, e tudo isso pelo poder da palavra. 

Silêncio e Palavra é uma obra única, sendo uma porta para esse mundo poético que Thiago nos leva. Foi sua iniciação artística, tendo uma recepção crítica muito mais que satisfatória, surpreendente. Os saudosos Álvaro Lins e Alceu Lima descreveram o poeta amazonense como um dos mais ilustres de sua geração, dotado de puro talento. 

Em seu livro de estreia, “Silêncio e Palavra” (1951), Thiago de Mello se lançava no cenário poético brasileiro dialogando com os moldes da poesia da “Geração de 45”, cujos grandes nomes então se revelavam. O livro foi recebido com entusiasmo pela crítica e por vários escritores da época, sendo aclamado por nomes como Álvaro Lins, José Lins do Rego, Tristão de Ataíde, Manuel Bandeira e Sérgio Milliet. (LIMA, 2012, p. 31 apud BONIFÁCIO, 2020, p. 96).

Silêncio e Palavra exprime a mais pura palavra, com diversos poemas carregados de emoção e de conhecimento do viver, mas simultaneamente nos faz questionar o sentido dela. Sinto-me instigado a analisar cada poema, cada palavra, pois isto transforma o ser.

Tudo se faz com o olhar crítico à sociedade, sobre suas problemáticas e imperfeições, onde é preciso reconhecer que a Arte fala aquilo que muitas vezes é silenciado, espraiando o toque imprescindível do conhecimento, da renovação da mente e alma. O homem e a palavra devem ser um, indissociáveis, parte um do outro. 


SILÊNCIO E PALAVRA


I


A couraça das palavras

protege nosso silêncio

e esconde aquilo que somos.


Que importa falarmos tanto?

Apenas repetiremos.


Ademais, nem são palavras.

Sons vazios de mensagem,

são como a fria mortalha

do cotidiano morto.

Como pássaros cansados,

que não encontraram pouso

certamente tombarão.


O tempo madura a fruta,

turva o fulgor da esperança.

Na suavidade da treva

urde o resplendor da rosa.

Mas não ensina a palavra

de pétalas de esmeralda

que o homem noturno espera

florescer da nossa boca.


II


Se mãos estranhas romperem

a veste que nos esconde,

acharão uma verdade

em forma não revelável.

(E os homens têm olhos sujos,

não podem ver através).


Chegará quem sabe o dia

em que a oferenda dos deuses

dada em forma de silêncio,

em palavra transfaremos.


E se porventura a dermos

ao mundo, tal como a flor

que se oferta - humilde luz -

teremos então cumprido

a missão que é dada ao poeta.

E como são onda e mar,

seremos homem e palavra.


 

É compreensível que a “palavra” que o poeta se refere é a poesia, a fonte de poder que transcorre o intangível, sendo hábil para realizar as mais fortes transformações, mas que quem a domina é o poeta, sendo ele o portador da luz que muda o pensamento, e que partilha conosco a possibilidade de usar a “palavra” como instrumento reformador de vidas e mundos.

Por outra perspectiva, que faz parte do que vivenciamos, entendo que a “palavra” nada mais é do que a manifestação do que somos interiormente. É objetivamente o nosso florescer, ao vir de dentro e se entrelaçar com o externo, consegue gerar flores ou sufocar o que toca. Acontece que por muitas vezes nos silenciamos ou somos silenciados.

A sociedade por muito tempo foi emudecida, refém de governos autoritários e ditatoriais, dogmas ou até mesmo a gama do conservadorismo descabido, que mesmo após a liberdade do pensamento e do viver os estigmas se perpetuam no cotidiano.

Hoje o silêncio pode partir do mais secreto lugar, lugar esse que é no mais profundo do homem, que prende a fala e abafa o som, que deixa inaudível a palavra, seja causado pelo medo ou pela insegurança de ser quem é. 

Contudo, é esperado que um dia, talvez ideal, o homem seja como o poema fala, um só com a palavra, e como são onda e mar.

Outro de seus poemas que faz parte da memorável coletânea, O Pássaro Louco, expõe uma visão sensível que Mello tem sobre o mundo, o sentido de que a vida é muito mais do que vemos de imediato, vai além do nosso campo de visão, e que devemos nos permitir, independente de como nos enxergamos, do que temos, de quem somos. 

O PÁSSARO LOUCO

É apenas um pássaro.

De adornos sucintos

e pobre plumagem.


No entanto, rejeita

o pouso mais rútilo

de toda a paisagem

que o mundo lhe oferta.


É pássaro, insisto.

Contudo, se alheia

aos amplos espaços.



Somente alça o voo

no justo momento

— e súbito canta! — :

é quando vislumbra

o efêmero pouso

fincado no azul.


Nem sabe se o alcança,

mas, louco, se impele.

(De pássaro e pouso

quão pouco sabemos).


Mas fica e cintila

— cristal no infinito —

o insólito canto

do pássaro louco.


É importante olhar a vida por outra perspectiva, que não há limite ao que desejamos alcançar e que a vida enquanto é curta também é vasta. É possível compreender que o poeta usa do seu poder figurativo quando se refere a “plumagem”, tornando a pequena ave um ser simples, sem muitos adornos ou qualquer coisa que o torne chamativo, entretanto, ratifica que o mais importante neste pássaro é a sua visão sobre tudo, o seu interior, e que assim o homem deve ser. Tem mais a ver com a existência do que com qualquer outra coisa, que olhar o mundo com atenciosidade é mais importante do que olhar a si mesmo.

Mello percorre todo o sentido da vida em poucas palavras, mas que perpassam a alma e nos deixa o questionamento de como estamos vivendo, da forma em que nos vemos ao olhar nosso reflexo. É mais que uma escrita, é a lição à vida, é o que movimenta nosso interior e gera o máximo questionamento de quem e como somos.

Este livro se torna tão completo que é possível levá-lo como um guia da vida; da mesma forma que Estatutos do Homem nos dá o ensinamento sobre a liberdade e o caminhar no mundo.

A editora Valer tem um zelo imensurável por esta e demais obras do grande Thiago de Mello, que partiu, mas deixou seu legado. O homem precisa encontrar seu itinerário, mas precisa de um referencial, e graças aos escritos de Mello é viável achar uma rota, uma direção que mesmo com as adversidades da vida é possível vencer e não ser vencido. Ser como o “pássaro louco”, que mais vale ver a vida e suas belezas do que se perder ao próprio deslumbre. 

REFERÊNCIAS: 

CAVALCANTE BONIFÁCIO, M. I. G. A poética das águas em Thiago de Mello: um Acerto de Contas com o rio e com a vida. Línguas & Letras, [S. l.], v. 21, n. 51, p. http://dx.doi.org/10.5935/1981–4755.20200030, 2021. Disponível em: https://e-revista.unioeste.br/index.php/linguaseletras/article/view/24071. Acesso em: 20 mar. 2023.

MELLO, Thiago de. Silêncio e Palavra. Manaus: Valer Editora, ed. 5, 2020.

Para quem quiser adiquirir a obra, clica aqui.

*Graduado em Direito e licenciando em Língua Portuguesa pela Universidade do Estado do Amazonas, onde é presidente do centro acadêmico do curso que faz parte. É pesquisador pelo programa PAIC/FAPEAM, onde desenvolve levantamento de fortuna crítica e análise para uma Recepção Crítica da obra Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum, assim como pesquisador no Grupo de Pesquisa em Direito Antidiscriminatório e Marginalizações Sociais na Amazônia (GPDAMSA/CNPq). Faz parte do núcleo de revisão e editoração da Editora Valer.



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